biografia


que, de nascido nu e roto,
era mais farto que muito nababo de aí,
e que,
de olho cinzento de agonia tinha mais viço e clareza que charlatão de dote,
era de ducado miserável.

de herança póstuma,
pois assim são as de sangue,
estima de cavaleiro e a mufa arejada do pai.
da mãe, só o umbigo que lhe caiu.

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maresia

amor.
não meu
estive recolhendo cacos
aos montes cacos
cortes e fatias
nessa carne sim
minha

deus
uma solução
salmoura
para que a água do corpo invertebrado do verme que revolve a epiderme
|camada verde de tempo|
minha epiderme
o verme
perca água e
sem verter uma lágrima
seque.

sal
evapore a vida líquida do verme.
e a água que o mantém
vivo e revolvendo minha ferida
vai virar
nuvem.

e minha dor
meu sangue
meu pus
minha resistência amarela e latejante que me acorda suada para trocar as ataduras do membro que apodrece e pede para que o liberte numa faca mal amolada de esquecimento e perdão
vai chover no seu quintal
e infestar sua piscina.

água para água.

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a passeio

eu te encontrei no escuro do teatro
sem lanterna
sem saber sequer da sua presença
te encontrei depois de ter sentado bem pertinho
sem saber sequer do seu assento
te encontrei pela silhueta do cabelo e da barba
sem saber sequer que você tinha levado os pelos pra passear
te encontrei porque seu silêncio entediado me fisgou no breu
sem saber sequer que eu também odiaria aquela peça
te encontrei
e daí pra sairmos da peça ao mesmo tempo
sem ensaio
foram duas ou três falas mal dadas
e aí
a gente foi pro bar que a gente chama de casa
foi pra rua dançar o hino contra o olho gordo
foi pra sua casa de olhos fechados
e eu
que te encontrei no escuro do teatro
sem lanterna
sem saber sequer da sua presença
te encontrei depois
deitado bem pertinho
sabendo bem
do seu leito
dos seus pelos passeando por mim
do seu silêncio de gozo violento
das duas ou três fodas bem dadas
e aí
sabendo de nós
a gente escolheu dormir
e confiar que em qualquer breu
– o nosso ou do teatro –
a gente vai sempre se encontrar.

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margarida

não há de ser por mim
que pulso
sozinho e  mudo
nesta floresta
de medo e sangue.

há de ser sua voz
senhora dos meus sentidos
o sol que me guiará
para a margem do mundo

há de ser seu coração
suas chagas
seu peito aberto
a estrada e a ponte
para esta clareira
dentro do impossível.

terreno seco
inóspito
e ladeado de amor.

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órbita

sufoco.
você.
cruzo os dedos numa nuca que implora
piedade clemência
razão
à minha ira.

a pele cede
vasos sanguíneos cedem
músculos lutam
cartilagens supõem o pior
a traquéia ora por um milagre
mas não consegue
aplacar
a profecia do velho coração:

uma nova vida virá.
uma nova vida virá.
uma nova vida virá.
uma nova vida.

você não entende
nunca vai entender
o quanto seu sufoco
é uma promessa
pra mim.

você não enxerga
a desonra dessa felicidade
aos nossos sonhos mortos.

você precisa calar.
seus sonhos e essa nova vida.
sufocar
até que os olhos saltem por vontade e horror
e esqueçam os meus
tão opacos
tentando alcançar um pescoço que
não está lá.

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veraneio

esse tempo.
o calor embaralha minhas idéias
minhas pupilas não gostam de tanta luz.
o calor me tira a paciência pros semelhantes
o calor
comanda a minha raiva.

por que então
sol
escaldante
e mau
por que não me apaga a memória?

o chão da cozinha da sua casa
enquanto você cozinhava nossos anos
enquanto os limões choravam caipirinhas
é o lugar mais fresco
que minhas costas já deitaram
o filme mais
bonito
das minhas férias.
acalmava minha desesperança.
me lembrava por que eu te dei meu coração.

sol
escaldante
e
mau
por que não me apaga a memória?
ou
me dê coragem pra invadir a sua casa
correr até a sua cozinha
e ficar deitada
ali
até essa dor passar.
dormir até esse sol ir embora.
até o verão se pôr
pra fora da minha cabeça.

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retos 28


eu e o mundo combinamos.
ele só me mata
depois que eu aprender a beijar seus pés
sem lamber suas botas.

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retos 27

o homem que ama não precisa de paisagens.
o homem que cria
não as conhece
eu
dono das minhas saudades
conheci pouco
por pouco
as mais bonitas
e delas
me desfiz sem dizer tchau

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santa casa

no último sonho havia febre
e uma informação a mais
em
todas
as minhas células.

os médicos chamam de vírus.
eu sei que é você.

no último sonho havia tinta
uma obra
em
movimento peristáltico

você cego como um susto.
suas costas um firmamento
a língua
que me alcançava
e ordenava
os ventos.

o tempo
que passava pelo pêndulo
assassino
do seu
sexo.

eu
olhei
olhei
olhei
olhei
olhei
e o tempo
seu tempo
me cegou
também.

na prescrição há um antídoto.
e eu sinto pena.
pena
da ingenuidade
da medicina.

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laranjamangacanela

o dia chegou.
o dia em que eu fiz um chá voluntariamente
LARANJA MANGA CANELA
e acreditei que ele iria curar as minhas dores
e tomei sem esperar gosto de remédio
e senti o calor descendo
com a vontade de chorar
LARANJA MAIS
POUCO MANGA
e encolhi os dedos dentro da meia
e subi o cobertor até os ombros
e não repeti nenhum medo
e pensei

CANELA ENFIM
LARANJA AQUI
MANGA

meu deus
os sonhos
são feitos
de mim
de mim

que eu não os alcance.

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