a origem.
Passo tanto tempo sem sequer dar a cara prum espelho que não saberia dizer quando exatamente cada vinco apareceu.
Devo isso a essa casa.
O pé direito altíssimo me tira qualquer artifício e invencionice enquanto estiver olhando pra ele.
Acho que a quantidade de ar que circula por aqui é maior que em muitos campos abertos e me mantém assim, de pensamentos dispersos.
Desaprendi a usar gravatas.
E quanto a isso nada tem de responsável essa vida ou essa casa.
Do dia em que meu pai morreu nunca mais consegui escolher uma sequer pra esconder esse pomo-de-adão intrometido por entre meus colarinhos.
Marca de nossos pecados.
Calo nas sinapses do corpo divino que ganhamos.
Parece que o velho sabia dos meus medos. Ter que ser o pilar de qualquer coisa além de mim quando da sua ausência foi motivo de insônia e falta de fome num menino de poucos pelos na perna.
E, tendo ido, levou com ele a minha capacidade de me fantasiar de homem. Livrou-se da decepção de que eu chegasse a tentar ser ele.
Grande e temido.
No dia em que ainda não sabia que ia morrer, acordei-o com uma entrada brusca no quarto, mais brusca do que minhas pernas gostariam que tivesse sido, mas bem menor do que minha urgência ordenava.
As robustas sobrancelhas estavam sonolentas e ainda era possível mirar o sol sem franzi-las.
‘Suponho que tenha importância o que me acordou pra dizer’, disse, sem medo da aspereza que dirigia a mim.
Importância tinha. Muita. Só não sabia se iria ter coragem pra dizer tudo que fui ensaiando pelo caminho.
E não tive.
Com a mesma inexatidão com que havia entrado, saí correndo e passei o dia na rua. Já era homem feito, meu deus, e ainda sentia medo da desaprovação de canto de boca que ele lançava quando soltava alguma das ‘bobagens que aprendi naquela porcaria de faculdade’.
Quando me dei conta, estava vestindo o preto.
E sem gravata. Era o único.
Fiquei sem dizer o quanto ele me dava medo e o quanto eu não queria mais me sentir sozinho naquela casa pequena e cheia de irmãos mesmo tendo saído de casa vinte e um anos antes.
E hoje, quando dei de cara comigo, entendi que não dava mais pra temer alguém que está morto.
E gostaria muito de saber se falo dele ou de mim.
Você disse uma vez que sabedoria era coisa de quem tem tempo e traseiro pra ver o tempo passar. Você é dessas coisas, de frases que ás vezes amarram o moleque da gente na preocupação até queimar a mufa para entendê-las.
Eu não. Eu observo as mesmas fotos de tempo em tempo só pra ver o amarelado deitando por cima dos rostos conhecidos e das colombinas dos carnavais da infância.
Era fadado ao sucesso mas nem sequer desconfiava desse futuro. Não temia homem algum antes que lhe soubesse o sobrenome. Ao primeiro nome dedicava menos importância por acreditar que dele todos podíamos escapar.
Alegava ignorância em piscar de olhos se fosse para assegurar qualquer resquício de piedade.
Eu era por isso.
Era por me proteger demasiado de minhas virtudes que todas me escapavam pela boca.
Estou voltando pra mim, amigo.
Te encontro lá em frente. E prometo te escrever todos os dias.
da série: Cartas a João Mattos


Uma faca sem corte que rasga suave a pele grossa que me separa (sem separar) o que eu sou de mim mesmo.
não há dissociação. há reconhecimento.
eis o pulo do gato.
No alvo, Amanda. Certeiro.
thanx, dude.
Eu li, eu leio sempre, passo sempre por aqui, mas quando me falta o ar comento. Você é foda, das mais fodas que conheço e isso transpira em tudo que faz, nos textos, nos palcos, na vida. Beijo.
só quem me conhece tão bem poderia resignificar meu dia tão rapidamente.
amocê, mano.
ei. emapatado!