luto.
até as folhas mais frescas, com resquícios do amarelo da infância, temeram cair em desgraça diante da urgência de fidúcias de Silvaninha. tão bem acomodadas foram no vaso azul, presente de casamento, que chegaram a julgar não serem merecedoras de aposento tão expressivo. mas a necessidade de Silvaninha, assim como seus enxovais, era inquestionável.
sabia que raros eram os ramalhetes dotados de frescor e, segunda feira que era, o achado tornou-se grata surpresa, motivo de reavaliações sobre a feira do bairro ser realmente boa. pelo menos não teria mais que andar – ainda mais agora, sozinha – até o outro bloco todo início de semana em busca de almeirão em condições humanas de consumo.
poucos percebem, e também ela, que levam mortos pra casa e lhes dão o dever de avivar o lugar, alimentar suas pessoas, enquanto o que acontece é que essas obras da existência só estão vivas, de fato, sob a terra.
desordem compreensível, já que um destino em linha reta só a faria crer o contrário.
recém viúva, tentava dar à copa um motivo de ser visitada, já que teria que regar as tais flores, caso quisesse que elas durassem tempo necessário pra desfazer-se da angústia da nova solidão. pensou inclusive, que essa poderia ser uma boa oportunidade pro projeto de vergel que Menegardo nunca conseguira finalizar mesmo com toda compreensão das épocas de poda e adubação. incapacidade que encolerizava o homem ao ponto de fazê-lo chutar sementes e húmus pros ares toda vez que mais uma muda negava-se a florescer e aterrorizava Silvaninha.
na verdade, ela chegou, por vezes, a achar que essa incultura do marido tinha algum mérito na doença que o matou.
mas a idéia de finalmente ter seu jardim a alegrou por um instante tão precioso que mal conseguiu divertir-se antes de ser derrubada pela culpa.
superar os esforços de Menegardo definitivamente não parecia ser o melhor fim pra memória do marido, então manteria uma asneira dessas só pra si. não era razoável admitir que do alto de seus pouco passados metro e meio, o ar fosse rarefeito o suficiente pra confundir uma mente tão prodigiosa quanto a dele. provável então que tivesse lidado com pormenores de cunho sobre-humano no merecimento da doença.
tentou satisfazer-se com essa justificativa que, pelo menos, era afeita ao preciosismo que os seus antigos atribuíam aos finados. devia tanto aos que a instruíram a prestar as devidas homenagens, poupadas todas as falhas do morto, que nem sequer saberia dizer o porquê de estar repensando todos esses episódios enquanto adornava o vaso azul.
foi quando, de súbito, espetou-lhe o dedo um dos botões e ela sem lembrar que não tolerava sabores acres, levou o dedo à boca. e apesar da espera, a estranheza no paladar não veio. de fato, o próprio sabor lhe pareceu tão confortante que ela entendeu que direcionar ódio àquele ramalhete, amontoado de criaturinhas divinas, tão alheias ao câncer de Menegardo devia ser motivo suficiente pra uma punição severa. pecado esse que Menegardo cometeu quando esbravejava contra a clara vontade da terra, pra merecer fim tão penoso.
‘vai ver se embaralhou com o significado que deu aos significantes de deus’.
isso sim.
isso sim satisfazia a necessidade de certezas de uma mulher que carregava agora um sobrenome que não era seu e de mais ninguém. a satisfez de tal modo que o tremor habitual de suas finas extremidades pareceu cessar.
o gosto do sangue já lhe parecia mais doce.

