caramelo.
havia cachos nela. voltinhas de meninice que escorriam pelo pescoço mas não alcançavam as costas.
medida exata entre elas e a mulher que brotava ali do meio.
não havia porém, indícios maiores de que alguma delas se sobressairia e dominaria a cena. qual os caracóis, viviam num emaranhado harmonioso.
a ela também pertenciam um par de pernas sempre expostas, mesmo na aspereza do inverno da cidade serrana. eram de um caramelo tão vivo que as faziam merecedoras da comparação à suculência da infância.
andava pouco, porém.
tanto que as idas à feira das terças dava à menina contornos de moradora antiga do bairro.
vagões do tempo eram suas pernas.
e, apesar de já não lembrarem há quanto tempo ela estava entre eles, todos assimilaram a rotina da pequena com grande interesse e elucubrações infinitas.
órfã herdeira fugida de um passado duvidoso.
viúva de golpe do baú procurando novo dote.
sacerdotisa manifesta de algo que explicasse seus mistérios e seu silêncio.
nem mesmo apresentou-se à vizinhança, disseram, sem ainda haver um testemunho de como ela e suas saias curtas haviam se instalado sem sequer a presença de um caminhão.
além disso, tempo depois, o que se soube é que era devota de colocar os cachos à disposição de um vizinho já mais vivido e convicto na solitude. era, de fato, um bom partido mas não abrangente quando o assunto era doar-se à eternidade do matrimônio.
foi suficiente para que a última gota de dúvida a respeito de seu caráter e recato atingisse os bueiros.
mas, ainda assim, era doloso às imaginações alheias pintar aquela imagem infantil e dócil em vias de pecado.
a confusão na nuvem de vizinhos foi tamanha que a única conclusão possível era a de que o solteirão se aproveitava da menina.
grande canalha.
em repreensão, o dono da venda fechou-lhe a conta e torceu o bigode pra lhe direcionar a última palavra: patife.
tudo resolvido, a culpa direcionada devidamente ao autor de tamanho transtorno nos lares conjugados – com vista pra cidade baixa – que todos voltaram a dormir tranquilamente e deixaram de se ocupar da pequena e suas aparições semanais.
ah, se soubessem que fora dela a artimanha de jogar uma calcinha por sobre o muro do homem para logo em seguida ir ter com ele resgatar a intimidade perdida e, desde então, o pedir que a esperasse sair pra feira e pular a mureta dos fundos para aguardar-lhe ali, pronto pra ouvir a única frase que ouvira sua boca dizer desde o primeiro dia:
‘me enraba’.


Adorei