sonho impossível.

eu pouco ouço música enquanto trabalho.
você sabe que meu silêncio ás vezes quase me engasga de tão prepotente que é. toma pra si uma parte de alegrias pequenas que não suportam alardes e outra de tristezas incomensuráveis.
são essas as duas validades do silêncio verdadeiro.
de qualquer modo, nestas horas preferia ter cultivado melhor os ouvidos.
nestas horas de angústias tão pontiagudas, afiadas…
uso poucas reticências. você sabe que as coisas suspensas me causam certo enjôo e, não fosse agora esses humores que me acometem, caberia aqui um belo trocadilho entre essa peculiaridade literária e meu pavor de altura.
peço perdão pela falta de espírito.

e então os tempos negros sempre voltam, afinal.
falamos sobre isso aquele dia em sua antiga casa.
sobre como poderíamos prever a roda dos temperamentos.
e sua liquorosa conclusão de que os movimentos circulares só agradavam aos clitóris me serviu também de boa piada quando em roda com meus camaradas psicanalistas.
dias de risos largos.
e desses dias lembro também de, permita-me segredar, observar o bonito fim de seu casamento. poderia ser só mais uma peleja, futuro constrangimento em frente dos amigos, mas não.
Clarita estava disposta a deixar você justamente no dia em que nos reunimos pro seu mais precioso quinze anos.

havia tanta crença naquele único momento que nada a desacreditaria.
era a imagem do equilíbrio.
e em você também havia algo de certeiro.
mas o silêncio daquele adeus…
meu amigo.
não sei ao certo quanto tempo demorei a me desfazer daquele dia mas, o calar-se de Clarita me tirou um pouco da música. me afastou das notas que apenas homens ainda intocados por essa dose de amargura ouvem.

de alguma forma essa minha vigília muda se instalou.
e desde que me mudei pra cá, esse lugar e esse algo de veraneio que há nele, me fizeram bem.
tentei cantar algumas vezes, até. afinando à tortura implacável, à incabível prisão.
mas decidi parar antes que a dignidade tocasse o inacessível chão, desenhando uma rima que já sofre de patetismo por si só.
batalha quase perdida.
quase tão fadada que a possibilidade da sua visita.
já faz tempo que te escrevi a última e ainda não ouvi os freios do seu possante atropelando minhas rosas.
tenho precisado de sua falta de sossego, João.
pra me acostumar com a condição de que o canto é praqueles que não têm um coração calado.

da série: cartas a João Mattos.

~ por Amanda Mantovani em 26/novembro/ 2010.

3 Respostas to “sonho impossível.”

  1. Demorei pra passar por aqui, porque precisei esperar esse raro momento em que, não precisando olhar o ponteiro apressado do relógio, me deliciei com esse talento, que é quase um cometa, de tão rara a sua exposição. Faça-me o favor de me dar mais momentos prazerosos como esse… e me perdoe as reticências.

  2. Precisei de alguns anos pra descobrir sua poesia. Isso é de uma beleza quase ofensiva.

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