o pequeno palhaço e um espetáculo de adeus.
cena única ext. / noite / rua
ela sentia agora um desamor-próprio que não havia experimentado antes.
minutos antes ele a explicou tudo direitinho.
o quanto as coisas pareciam agora ser maiores que ele e o quanto isso era criminoso pra sua inspiração de artista latinoamericano.
‘desse lado do equador precisamos de sofrer ou de sambar pra criar.’
aquilo era a quase morte, ela pensou.
aproveitou e refez o caminho do par de meses que ficaram juntos e não entendeu por que as madrugadas de risada haviam ganhado contornos dolosos. aquelas mesmas risadas que já haviam preenchido tantas vezes o zumbido que a cidade faz quando amanhece.
ele era moço.
mas vivia de arte e, sendo assim, era inteiro. devia confiar nele.
aprendeu com ele que a arte, qualquer que fosse, era ciumenta com aqueles que se serviam dela.
tudo dito.
ela só poderia aceitar e cumprir o papel para o qual foi escalada.
agora ali estavam parados num abraço, valsando um silêncio que construíram com os próprios pés.
vivos, pulsantes, eram os outros que também dançavam, atentos à cadência dos dois – longe do tango, próxima do abismo.
essa inevitabilidade de algo que não se quer, isso sim era a quase morte.
os observadores não torciam por um passo em falso. queriam seu melhor espetáculo.
tinham o melhor linóleo que a cidade podia oferecer. no concreto da larga avenida, os postes refletiam sem focar. melhor assim, nesse cenário eram penumbra, e dali só sairiam quando as cortinas dos edifícios se abrissem pedindo silêncio, praguejando aquela dança.
por fim, ele cumpriu o ritual de despedida triste: virou-se lentamente, deslizou dedos pelo cabelo dela, sussurrou um ‘seja feliz’.
ela sabia que a carga dramática acrescida pelo discurso de artista não tinha lá grande valia, afinal não estiveram tanto tempo juntos.
mas ela o gostava e não ter aquilo era, de fato, uma pequena morte.
então, boa platéia que era, engoliu o azedo de aceitar a encenação do tchau.
ele estava satisfeito com a sessão da noite e comemoraria essa estréia com espumante barato, nos encalços de algum ônibus qualquer que, finalmente, o levaria a seu Grand Hotel; de volta às ruas.


A-rá! Finalmente!
Mas sempre vale a pena esperar! Gosto muito dos seus textos, Mandita!
Viu, você deixa juntar poeira na gaveta ou, assim que os escreve, já nos dá o prazer ao compartilhá-los?
Precisamos de mais uma cerveja!
Beijão