a origem.

•24/janeiro/ 2012 • 6 Comentários

Passo tanto tempo sem sequer dar a cara prum espelho que não saberia dizer quando exatamente cada vinco apareceu.
Devo isso a essa casa.
O pé direito altíssimo me tira qualquer artifício e invencionice enquanto estiver olhando pra ele.
Acho que a quantidade de ar que circula por aqui é maior que em muitos campos abertos e me mantém assim, de pensamentos dispersos.

Desaprendi a usar gravatas.
E quanto a isso nada tem de responsável essa vida ou essa casa.
Do dia em que meu pai morreu nunca mais consegui escolher uma sequer pra esconder esse pomo-de-adão intrometido por entre meus colarinhos.
Marca de nossos pecados.
Calo nas sinapses do corpo divino que ganhamos.

Parece que o velho sabia dos meus medos. Ter que ser o pilar de qualquer coisa além de mim quando da sua ausência foi motivo de insônia e falta de fome num menino de poucos pelos na perna.
E, tendo ido, levou com ele a minha capacidade de me fantasiar de homem. Livrou-se da decepção de que eu chegasse a tentar ser ele.
Grande e temido.

No dia em que ainda não sabia que ia morrer, acordei-o com uma entrada brusca no quarto, mais brusca do que minhas pernas gostariam que tivesse sido, mas bem menor do que minha urgência ordenava.
As robustas sobrancelhas estavam sonolentas e ainda era possível mirar o sol sem franzi-las.
‘Suponho que tenha importância o que me acordou pra dizer’, disse, sem medo da aspereza que dirigia a mim.
Importância tinha. Muita. Só não sabia se iria ter coragem pra dizer tudo que fui ensaiando pelo caminho.
E não tive.
Com a mesma inexatidão com que havia entrado, saí correndo e passei o dia na rua. Já era homem feito, meu deus, e ainda sentia medo da desaprovação de canto de boca que ele lançava quando soltava alguma das ‘bobagens que aprendi naquela porcaria de faculdade’.
Quando me dei conta, estava vestindo o preto.
E sem gravata. Era o único.

Fiquei sem dizer o quanto ele me dava medo e o quanto eu não queria mais me sentir sozinho naquela casa pequena e cheia de irmãos mesmo tendo saído de casa vinte e um anos antes.

E hoje, quando dei de cara comigo, entendi que não dava mais pra temer alguém que está morto.
E gostaria muito de saber se falo dele ou de mim.
Você disse uma vez que sabedoria era coisa de quem tem tempo e traseiro pra ver o tempo passar. Você é dessas coisas, de frases que ás vezes amarram o moleque da gente na preocupação até queimar a mufa para entendê-las.
Eu não. Eu observo as mesmas fotos de tempo em tempo só pra ver o amarelado deitando por cima dos rostos conhecidos e das colombinas dos carnavais da infância.
Era fadado ao sucesso mas nem sequer desconfiava desse futuro. Não temia homem algum antes que lhe soubesse o sobrenome. Ao primeiro nome dedicava menos importância por acreditar que dele todos podíamos escapar.
Alegava ignorância em piscar de olhos se fosse para assegurar qualquer resquício de piedade.

Eu era por isso.
Era por me proteger demasiado de minhas virtudes que todas me escapavam pela boca.

Estou voltando pra mim, amigo.
Te encontro lá em frente. E prometo te escrever todos os dias.

da série: Cartas a João Mattos

pulmão.

•19/janeiro/ 2012 • 5 Comentários

inala.
fundo. *
carne porosa e sangue.

se sonhasse,
vez ou outra,
estou seguro que seriam os quadros
que Mansell pintaria,
se pintasse.

era o incômodo da falta.
era a suspensão entre a resistência dos pulmões.
inflados.
mais fundo.
re-existência.
fundo.

descolam-se.
invasão, retomada de posse.
tudo – fundo
pertence
fundo fundo fundo
ao ar.

cômodos sem cantos, salões vazios.
janelas maiores que girafas.

era um canteiro de obras
superfaturando dias.
era toda essa desordem.
funda.

era o black-tie que virou pijama.
era alguma decisão de não viver.
mais
fundo.

perigos com cara de mãe.
oferecem colo.

era toda uma vida que só se pode viver ao lado.
era fundo.

* ‘together we will live forever’ – clint mansell

luto.

•3/junho/ 2011 • Deixe um comentário

até as folhas mais frescas, com resquícios do amarelo da infância, temeram cair em desgraça diante da urgência de fidúcias de Silvaninha. tão bem acomodadas foram no vaso azul, presente de casamento, que chegaram a julgar não serem merecedoras de aposento tão expressivo. mas a necessidade de Silvaninha, assim como seus enxovais, era inquestionável.
sabia que raros eram os ramalhetes dotados de frescor e, segunda feira que era, o achado tornou-se grata surpresa, motivo de reavaliações sobre a feira do bairro ser realmente boa. pelo menos não teria mais que andar – ainda mais agora, sozinha – até o outro bloco todo início de semana em busca de almeirão em condições humanas de consumo.

poucos percebem, e também ela, que levam mortos pra casa e lhes dão o dever de avivar o lugar, alimentar suas pessoas, enquanto o que acontece é que essas obras da existência só estão vivas, de fato, sob a terra.

desordem compreensível, já que um destino em linha reta só a faria crer o contrário.

recém viúva, tentava dar à copa um motivo de ser visitada, já que teria que regar as tais flores, caso quisesse que elas durassem tempo necessário pra desfazer-se da angústia da nova solidão. pensou inclusive, que essa poderia ser uma boa oportunidade pro projeto de vergel que Menegardo nunca conseguira finalizar mesmo com toda compreensão das épocas de poda e adubação. incapacidade que encolerizava o homem ao ponto de fazê-lo chutar sementes e húmus pros ares toda vez que mais uma muda negava-se a florescer e aterrorizava Silvaninha.
na verdade, ela chegou, por vezes, a achar que essa incultura do marido tinha algum mérito na doença que o matou.
mas a idéia de finalmente ter seu jardim a alegrou por um instante tão precioso que mal conseguiu divertir-se antes de ser derrubada pela culpa.
superar os esforços de Menegardo definitivamente não parecia ser o melhor fim pra memória do marido, então manteria uma asneira dessas só pra si. não era razoável admitir que do alto de seus pouco passados metro e meio, o ar fosse rarefeito o suficiente pra confundir uma mente tão prodigiosa quanto a dele. provável então que tivesse lidado com pormenores de cunho sobre-humano no merecimento da doença.

tentou satisfazer-se com essa justificativa que, pelo menos, era afeita ao preciosismo que os seus antigos atribuíam aos finados. devia tanto aos que a instruíram a prestar as devidas homenagens, poupadas todas as falhas do morto, que nem sequer saberia dizer o porquê de estar repensando todos esses episódios enquanto adornava o vaso azul.

foi quando, de súbito, espetou-lhe o dedo um dos botões e ela sem lembrar que não tolerava sabores acres, levou o dedo à boca. e apesar da espera, a estranheza no paladar não veio. de fato, o próprio sabor lhe pareceu tão confortante que ela entendeu que direcionar ódio àquele ramalhete, amontoado de criaturinhas divinas, tão alheias ao câncer de Menegardo devia ser motivo suficiente pra uma punição severa. pecado esse que Menegardo cometeu quando esbravejava contra a clara vontade da terra, pra merecer fim tão penoso.

‘vai ver se embaralhou com o significado que deu aos significantes de deus’.

isso sim.
isso sim satisfazia a necessidade de certezas de uma mulher que carregava agora um sobrenome que não era seu e de mais ninguém. a satisfez de tal modo que o tremor habitual de suas finas extremidades pareceu cessar.

o gosto do sangue já lhe parecia mais doce.

caramelo.

•20/abril/ 2011 • 1 Comentário

havia cachos nela. voltinhas de meninice que escorriam pelo pescoço mas não alcançavam as costas.
medida exata entre elas e a mulher que brotava ali do meio.
não havia porém, indícios maiores de que alguma delas se sobressairia e dominaria a cena. qual os caracóis, viviam num emaranhado harmonioso.
a ela também pertenciam um par de pernas sempre expostas, mesmo na aspereza do inverno da cidade serrana. eram de um caramelo tão vivo que as faziam merecedoras da comparação à suculência da infância.
andava pouco, porém.
tanto que as idas à feira das terças dava à menina contornos de moradora antiga do bairro.
vagões do tempo eram suas pernas.
e, apesar de já não lembrarem há quanto tempo ela estava entre eles, todos assimilaram a rotina da pequena com grande interesse e elucubrações infinitas.

órfã herdeira fugida de um passado duvidoso.
viúva de golpe do baú procurando novo dote.
sacerdotisa manifesta de algo que explicasse seus mistérios e seu silêncio.

nem mesmo apresentou-se à vizinhança, disseram, sem ainda haver um testemunho de como ela e suas saias curtas haviam se instalado sem sequer a presença de um caminhão.

além disso, tempo depois, o que se soube é que era devota de colocar os cachos à disposição de um vizinho já mais vivido e convicto na solitude. era, de fato, um bom partido mas não abrangente quando o assunto era doar-se à eternidade do matrimônio.
foi suficiente para que a última gota de dúvida a respeito de seu caráter e recato atingisse os bueiros.
mas, ainda assim, era doloso às imaginações alheias pintar aquela imagem infantil e dócil em vias de pecado.

a confusão na nuvem de vizinhos foi tamanha que a única conclusão possível era a de que o solteirão se aproveitava da menina.
grande canalha.
em repreensão, o dono da venda fechou-lhe a conta e torceu o bigode pra lhe direcionar a última palavra: patife.
tudo resolvido, a culpa direcionada devidamente ao autor de tamanho transtorno nos lares conjugados – com vista pra cidade baixa – que todos voltaram a dormir tranquilamente e deixaram de se ocupar da pequena e suas aparições semanais.

ah, se soubessem que fora dela a artimanha de jogar uma calcinha por sobre o muro do homem para logo em seguida ir ter com ele resgatar a intimidade perdida e, desde então, o pedir que a esperasse sair pra feira e pular a mureta dos fundos para aguardar-lhe ali, pronto pra ouvir a única frase que ouvira sua boca dizer desde o primeiro dia:

‘me enraba’.

equação.

•9/março/ 2011 • Deixe um comentário

espacialmente era uma. não havia indícios de sua presença em qualquer outro ambiente a não ser o presente banheiro, o que confirmava a suspeita.

ao entrar em casa, não deixou os artifícios de mulher, bagagens de dia a dia em seus lugares costumeiros. foi, num passo só, da porta ao banheiro, como havia feito do ônibus ao portão de casa e da farmácia ao ponto de ônibus.

substancialmente era uma.havia provas, principalmente agora, que as anfetaminas começavam a fazer efeito e ela passara a se sentir digna de novos jeans, uma unidade de força feminina cheia de rebolados número 40.

a investigação se fazia clara. em todas as direções, nada apontava a possibilidade e ela ter um reflexo ou uma desmembração andando por aí, vivendo uma vida em seu nome. era uma.

a questão era: por que ela, sentada ao vaso com a bolsa entreaberta e de calças nos joelhos, encarando um filete de papel encharcado de sua urina se perguntava agora como seria possível tornar-se duas?

fragmento rubro.

•11/janeiro/ 2011 • 2 Comentários

havia algo de tão infantil no ato de se lambuzar que, por um momento, se esqueceu que o que a entretinha, se esticava entre os dedos e escorria pelo queixo era o sêmen daquele homem.
pensou em como gostava dele morno, confortável e, sem se desfazer da sua ocupação, se perguntou se seu batom vermelho a havia pintado de rosa, já que, a lição de miúda dizia que sim.
amalgamado ao branco dele era uma tinta rica, de tonalidades tensas de tanto esperar.
esperou demais por ele.
sabia porém, que nem tudo havia sido espera.
tinha memórias de dias em que o vira mais manso e com menos piadas nonsense e que isso a fez esperar sem medo pela oportunidade de coroá-lo a peia com um beijo vermelho.

agora, feito rei e recebido de lábios abertos, ele era só uma sombra murcha que não questionava a falta do protocolo de chuveiro-cochilo. a assistia brincar de leve com o resultado físico do que já fora só ligações tesas no meio do expediente, foda a distância com requintes imaginários dantescos.
e achou bonito mesmo sabendo que as gotas de porra não eram o produto final, haviam sido também a fagulha pra esse estado irreversível de prazer conjunto.

ali havia também a parcela de gozo dela, tinta incolor aos olhos mas não aos sentidos, e a marca da boca que desenhava todo o caminho do pau até os pêlos planejada com cuidado – o retoque no batom, ajoelhada já à sua frente, denunciou.
e quando tudo que havia entardeceu, se olharam.
pensou que a mulher de paciência elástica e verbo infinito merecia ser bem beijada. sentiu o gosto dos dois e agarrou-lhe um dos seios; era cedo demais pra ir embora.

sonho impossível.

•26/novembro/ 2010 • 3 Comentários

eu pouco ouço música enquanto trabalho.
você sabe que meu silêncio ás vezes quase me engasga de tão prepotente que é. toma pra si uma parte de alegrias pequenas que não suportam alardes e outra de tristezas incomensuráveis.
são essas as duas validades do silêncio verdadeiro.
de qualquer modo, nestas horas preferia ter cultivado melhor os ouvidos.
nestas horas de angústias tão pontiagudas, afiadas…
uso poucas reticências. você sabe que as coisas suspensas me causam certo enjôo e, não fosse agora esses humores que me acometem, caberia aqui um belo trocadilho entre essa peculiaridade literária e meu pavor de altura.
peço perdão pela falta de espírito.

e então os tempos negros sempre voltam, afinal.
falamos sobre isso aquele dia em sua antiga casa.
sobre como poderíamos prever a roda dos temperamentos.
e sua liquorosa conclusão de que os movimentos circulares só agradavam aos clitóris me serviu também de boa piada quando em roda com meus camaradas psicanalistas.
dias de risos largos.
e desses dias lembro também de, permita-me segredar, observar o bonito fim de seu casamento. poderia ser só mais uma peleja, futuro constrangimento em frente dos amigos, mas não.
Clarita estava disposta a deixar você justamente no dia em que nos reunimos pro seu mais precioso quinze anos.

havia tanta crença naquele único momento que nada a desacreditaria.
era a imagem do equilíbrio.
e em você também havia algo de certeiro.
mas o silêncio daquele adeus…
meu amigo.
não sei ao certo quanto tempo demorei a me desfazer daquele dia mas, o calar-se de Clarita me tirou um pouco da música. me afastou das notas que apenas homens ainda intocados por essa dose de amargura ouvem.

de alguma forma essa minha vigília muda se instalou.
e desde que me mudei pra cá, esse lugar e esse algo de veraneio que há nele, me fizeram bem.
tentei cantar algumas vezes, até. afinando à tortura implacável, à incabível prisão.
mas decidi parar antes que a dignidade tocasse o inacessível chão, desenhando uma rima que já sofre de patetismo por si só.
batalha quase perdida.
quase tão fadada que a possibilidade da sua visita.
já faz tempo que te escrevi a última e ainda não ouvi os freios do seu possante atropelando minhas rosas.
tenho precisado de sua falta de sossego, João.
pra me acostumar com a condição de que o canto é praqueles que não têm um coração calado.

da série: cartas a João Mattos.

o pequeno palhaço e um espetáculo de adeus.

•31/agosto/ 2010 • 1 Comentário

cena única ext. / noite / rua

ela sentia agora um desamor-próprio que não havia experimentado antes.
minutos antes ele a explicou tudo direitinho.
o quanto as coisas pareciam agora ser maiores que ele e o quanto isso era criminoso pra sua inspiração de artista latinoamericano.
‘desse lado do equador precisamos de sofrer ou de sambar pra criar.’

aquilo era a quase morte, ela pensou.

aproveitou e refez o caminho do par de meses que ficaram juntos e não entendeu por que as madrugadas de risada haviam ganhado contornos dolosos. aquelas mesmas risadas que já haviam preenchido tantas vezes o zumbido que a cidade faz quando amanhece.
ele era moço.
mas vivia de arte e, sendo assim, era inteiro. devia confiar nele.
aprendeu com ele que a arte, qualquer que fosse, era ciumenta com aqueles que se serviam dela.
tudo dito.
ela só poderia aceitar e cumprir o papel para o qual foi escalada.

agora ali estavam parados num abraço, valsando um silêncio que construíram com os próprios pés.
vivos, pulsantes, eram os outros que também dançavam, atentos à cadência dos dois – longe do tango, próxima do abismo.
essa inevitabilidade de algo que não se quer, isso sim era a quase morte.
os observadores não torciam por um passo em falso. queriam seu melhor espetáculo.
tinham o melhor linóleo que a cidade podia oferecer. no concreto da larga avenida, os postes refletiam sem focar. melhor assim, nesse cenário eram penumbra, e dali só sairiam quando as cortinas dos edifícios se abrissem pedindo silêncio, praguejando aquela dança.

por fim, ele cumpriu o ritual de despedida triste: virou-se lentamente, deslizou dedos pelo cabelo dela, sussurrou um ‘seja feliz’.
ela sabia que a carga dramática acrescida pelo discurso de artista não tinha lá grande valia, afinal não estiveram tanto tempo juntos.
mas ela o gostava e não ter aquilo era, de fato, uma pequena morte.
então, boa platéia que era, engoliu o azedo de aceitar a encenação do tchau.

ele estava satisfeito com a sessão da noite e comemoraria essa estréia com espumante barato, nos encalços de algum ônibus qualquer que, finalmente, o levaria a seu Grand Hotel; de volta às ruas.

um homem bateu em minha porta.

•17/junho/ 2010 • 1 Comentário

as menininhas do vizinho pulam corda.
adoram.
grande surpresa ter qualquer vizinho, quem dirá que ele tenha menininhas!

aqui é afastado de quase tudo. não vejo telhados ao horizonte, à noite não salpicam janelas iluminadas.
só as percebi ontem por causa do silêncio maior que de costume que permitiu o hino das pequenas chegar até aqui.
e eu confesso não me incomodar como achei que faria quando comecei a sentir a velhice e tudo me era um grande distúrbio.
substituí o relógio antigo por um desses assépticos, sem números e sem barulho, por conta do tique taque.
‘substituiu também a chata da Tina pela punheta nossa de cada dia’, você diria. mas não. Tina era realmente a única que me faria boa companhia pela vida.
era particularmente leve e confortável e o mundo lhe ofereceria outras boas opções. justo então, reservar a solitude a quem se faz exemplar desparcerado.

deveria vir me visitar.
conhecer as menininhas que eu ainda só conheço os pulinhos e gargalhadas quando a corda é mais rápida que o pé.
a verdade é que talvez eu tenha me atido a elas justamente por isso.
elas gargalham nos erros, meu amigo.
gargalham.
e reduzem a pó a rabugice que eu acreditava ter.
oras, se sob prova tão primária ela sucumbe assim, com largas pernas, é de se duvidar que ela sequer tenha existido!

tornei-me atento à função das coisas, como vê.
atento aos sinais da fortuna.
e com isso os pequenos eventos tornam-se grandes momentos, sabe.
deveria provar de tal besteira pacífica antes de se enterrar de vez nessa dinheirama toda.

deveria vir me visitar.
e esvaziar esses pulmões pretos (‘noir, seu desgraçado!’) de ares de saudade.
e eu te aceitaria como no hino das meninas.
você bateria em minha porta e eu talvez fizesse piruetas para recebê-lo, mesmo com a certeza que o olho da ra-ré-ri-ró-rua seria sempre o seu caminho.

da série: cartas a João Mattos.

amar é.

•21/maio/ 2010 • 4 Comentários

você devia ver as coisas daqui, de onde falo.
a vista é um privilégio.
tão rente à superfície, ao concreto, que nada tem proporção além do que se é.
eu sei meu amigo.
posso reconhecer (mesmo antes de dizê-las! e assim, reconheço sua natureza hiperbólica), as exclamações de sua resposta.
tão limitado é o quadro que tenho em frente!
vasta obra, eu lhe digo.
ampla nos seus contornos que nada fazem além de me seduzir a tirá-los o significado.

guardo pouco aqui comigo, o necessário.
e vivo bem.
os excessos eu geralmente reservo pros momentos de luxúria.
um naco de pão, batimentos cardíacos baixos e a minha coleção.
sim, coleção.
sempre fui de me dedicar à fidelidade, você sabe.
talvez por isso meu último divórcio dure até hoje!

as figurinhas simples, de cores mínimas, dizem que amar é algo de simples ciência.
necessita paciência pros machucados da alma, permite um pouco de malícia com a calcinha por baixo do vestido, mas nunca, jamais egoísmo quando o assunto é sorvete.
acredito nelas, camarada.
talvez já deva até ter lhe contado a respeito disso – e ouvido algo como ‘um cherry brand lhe seria de maior utilidade’ — mas inda assim confio aos dois enamorados o observar de quatrocentosequarentaesete maneiras de amar.
são muitas eu sei.
e nem tenho todas.

você devia tentar.
minuciosamente tentar.
uma coleção qualquer, um apego pequeno.
dá frescor novo pro hálito da gente. e tira muita poeira dos olhos, à pá.
o casal protagonista das figurinhas me comove com sua nudez.
penso que essa seja proposital, aliás.
tratar de tema tão curvilíneo estampando pureza?
só pode ser figura de linguagem muito bem pensada.

mas não vai ser a minha saliva – que já se amalgama com o piche – que vai te convencer a uma bobagem dessas, não é?

sorte minha ter você como amigo.
tenho muito pouco aqui comigo. quase nada, mesmo.
mas essa certeza de que são seus dedos fedendo a charuto que passam pelas linhas dessa folha agora, os seus e de ninguém mais, me confortam feito peito de mãe.

da série: cartas a João Mattos.

 
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