o rosto ardendo tanto que mal sentiu o segundo tapa.
dessa vez a boca.
acre de sangue, murcho de medo, o cérebro pedia clemência.
‘onde chegamos, meu deus?’
ela não. não queria piedade por saber ter errado demais. e aquilo não passava pela dor ou pelo prazer, era vivo aquele momento como era viva a sua culpa.
era incapaz de expurga-la sozinha e, assim, ele a fazia bem.
ele de joelhos sobre sua figura nua, esmagada pelo peso do ódio e do amor daquele homem. não lhe prendia os pulsos e ela não lutava.
suja de seu sexo, dolorida pela força de seu sexo, marcada pelos dentes de seu sexo.
atada às aspas das ofensas que, sabia, pertenciam a ela com todo direito.
continuariam a se amar e, por isso, ele precisava dizer-lhe o tamanho de seu erro. fechara os olhos, havia o deixado ir.
deixou que ele olhasse a moça leve, sem medos e problemas.
deixou que se apaixonasse por ela.
e ela soube sem q ele contasse, que a nova mulher o levaria. *
e isso o matava.
não aceitava o fracasso do amor entre eles.
tapa. o corpo já sem a resistência da pele, aceitava o violeta do sangue que ficou dentro. pisado.
olhos em chamas e nem uma palavra da boca dela.
entendeu que aquele ato de amor extremo vinha chegando ao fim.
ele estava exausto.
o homem passou a ser mancha, depois escuro e depois silêncio.
sabia que não o veria mais.
era bom demais pra ela.
a despedida.
•4/fevereiro/ 2010 • Deixe um comentárioa puta.
•25/janeiro/ 2010 • Deixe um comentárioda primeira noite você veio com os da sexta feira.
e, pra todo mundo, sexta feira é dia de descarrego. do bolso vazio, do puto do chefe. da mulher fedida de alho. eu apostei que você não bancava o preço dos meus serviços e, pra vir parar numa esquininha de merda dessas, cheirando a dia a dia que pesa nas costas e não no bolso, o meu investimento seria o mínimo, o trivial.
você tinha esse cheiro.
-cheiro de que?
não sei. não era suor, sebo de homem, conheço bem.
nem brio. não podia ser. apesar de ter botado só o nariz no rastro do maldito, sei bem reconhecer o cavalheiro que vai me dar trabalho.
esses, vêm com generosidade de menos e barganhas demais.
acredite ou não, tem homem que não sabe se servir da bela mesa que é uma mulher de quatro e pagar por isso.
também não era medo. já da primeira vez que veio não sentia medo.
queria mesmo era se desfazer um pouco daquele cheiro que impregnava as narinas e os pêlos.
mas pra mim, meu bem, sexta feira não é dia. é noite. noite inteira.
não tem contra-cheque no mundo que dê conta da minha sexta feira. mas pra você isso não ia ser problema porque a sua era de folga. o gerente da esquininha sabia bem disso e foi logo te tratando por comparte. confiou de cara, porque você veio com os de sexta, os caras da funerária.
desses, sabia-se, não se tirava uma moeda a mais porque a conta vinha do dono: presente.
os empregados aproveitavam pra desforrar as caveiras que grudavam no pescoço durante o trabalho ingrato e esquentar os dedos acostumados ao toque tétrico.
carregar caixão de qualquer filho da puta por aí pode ser de amolecer um cidadão, não é?
e, confesso, se me interessasse, até ouviria algumas das histórias que os outros tanto contam pelo salão da casa. ouvir a vida dos outros me distrai da minha e me poupa o trabalho de procurar o que restou dela no fundo da bolsa.
porção miúda: você sabe o que dizem sobre meninas com bolsas pequenas.
quem sabe assim, engolindo o caso alheio, meu lucro não escorria pelo ralo.
tomar oito banhos na noite deixa a pele da gente gelada, pálida de tanto esfregar. na carcaça do outro e no chuveiro.
e você sente quando a água está levando um pouco mais do que suor, porra.
só sobra na gente um visgo tétrico que não sai nem com reza. não dá nem pra culpar quem vê santidade em puta. taí tanto bigode que sonha com meu divórcio da putaria.
o miolo do que a gente é fica mesmo muito macilento depois de tanto atrito, a cara perde o movimento do não.quase que nem santo.
santo não é. ele serve.
santo diz sim. eu também.
a diferença é que a minha moeda é penitência viva e eu vejo quando a carteira se abre com necessidade.
e necessidade custa caro, você sabe.
quer? paga.
trinta reais a ‘ave-maria-mãe-de-deus’ de ladinho!
quer chamar de vagabunda? paga.
quarentinha a hora do terço e dá pra gozar duas vezes!
mais? você quer mais?
então paga.
abre o bolso, conta as moedas.
eu faço.
mas não vejo você fazendo.
só se quiser.
quer?
então paga.
post it.
•12/novembro/ 2009 • Deixe um comentárionão sei se vc está aí.
mas se estiver, esteja, por favor.
tivesse estado um pouco menos e sido um pouco mais, teríamos um belo plano prum feriado prolongado.
estejamos, ok?
e seremos o bem.
seremos bem melhores.
machine at augusta.
•28/outubro/ 2009 • 6 ComentáriosConversavam. Nunca entre si. Ele com seus culhões, ela com seus laços.
Ele, provindo de uma família de covardes, era mais ou menos como um cavaleiro por herança: conservava um cavalo cego e valente e, sob um altar, uma armadura por polir. Mas, do pé da morada de vidro, via-se uma imagem desconcertante.
A armadura, nem branca, nem lata, não trazia um elmo.
Que cavaleiro, por menos condecorado, seria tão decimal – o zero à esquerda – a ponto de ignorar o artefato?
E, diante dos questionamentos, resposta tão estranha quanto.
O pai quando em combate, honrando o sobrenome, abrigou-se na copa de uma árvore para fugir das lanças do inimigo. Qual não foi o destino, uma cascavel da pior procedência lhe agarrou o pescoço e o engoliu pelas orelhas.
Não havia notícias de nunca uma serpente, do tamanho que fosse, ter feito de um homem sua ceia!
E, confirmando a crença popular, o animal sufocou-se.
Deu de gosto com as têmporas do homem e, de rígida como aço, padeceu à inércia dos mortos. Desfigurado pelo ataque, teve um cortejo fúnebre rápido e o filho, agora homem da casa, decidiu resguardar a cidade da imagem ferida do pai: adornou-o com o elmo e o recobriu de flores até o pescoço.
Ali jazia um cavaleiro abatido pelo pecado da covardia.
De certo a história não demorou a correr.
Muitos vinham contemplar a armadura sem cabeça. Mas, o fato, era que poucos ouviram-no contar de própria saliva.
Já ela, privilegiada e de sentidos substituídos pelo vinho, tinha os detalhes do funesto conto ali, expostos à meia luz na praça matriz do povoado.
Preferiu sorrir e abrir um pouco mais o decote para talvez, encerrar a sucessão de lágrimas do rapaz já tão etílico e nostálgico.
Ele percebeu a artimanha e aninhou a cabeça no colo ofertado. Era um covarde, afinal.
Ouviu-a dizer que estava cansada da vida na confeitaria, que se lhe dessem uma única chance como camareira no castelo do conde Marshallês, mudaria correndo para os domínios do nobre.
Apontou-lhe as bochechas vermelhas, ‘é o vinho’, cheirou-lhe o pescoço, abriu um pouco mais a blusa respingada de fios de ovo.
Nem todas as histórias do mundo, nem a dele e seu pai, a armadura que um dia seria sugada pela terra, a infelicidade da moça, nada. Nada daquilo era suficiente para aplacar a imensa vontade de serem ouvidos um pelo outro.
Eram, por assim dizer, oportunidades gastas no desmanchar da noite.
E da praça ao monte de feno mais próximo consumiram-se do jeito que sabiam.
Ela a espera do mais viver, ele na fuga de não morrer.
renoires.
•16/setembro/ 2009 • 5 Comentáriosdo bolso da impraticável destreza de ser, ele tirou uma gravata borboleta. laçaroteou-se à ela rapidamente e saiu.
encontrou-a num bar pendurada no balcão, vestindo sapatilhas e uma saia amarela e, olhando de longe, desenhou-a figura incomum praquela metrópole tão barulhenta. era quase tão estrangeira quanto qualquer um ali, mas parecia mais estranha ao lugar: ela era afeita a um tipo de tristeza, havia um silêncio nela que quase imobilizava a face por completo.
conviviam pacificamente sob o mesmo travesseiro e, raramente negavam companhia uma à outra.
eram, por assim dizer, companheiras, ela e a tristeza.
aproximou-se e do cumprimento formal, foram rapidamente ao riso, eram especialistas no tal silêncio constrangedor que assombra primeiros encontros e não julgavam estranho isso acontecer ainda mesmo depois dos tantos anos.
sentia-se feliz de um jeito estranho e saciava-se com a possibilidade de só ele poder ouvir aquele silêncio que ela emitia. de só ele saber o momento exato de chamá-la pra dançar — ao terceiro Bourbon.
enquanto isso, enquanto ela, enquanto o bar, esperou que a timidez se diluísse ‘on the rocks’ e lhe deu o presente.
‘você é linda.’
e a valsa judiciosa adentrou o salão arrancando um ‘sim’ da boca da menina.
ela dançaria.
eles dançariam.
ela em silêncio. ele enfim.
daqueles que não sabem meu nome.
•9/agosto/ 2009 • 1 Comentáriocomo não soubesse que eu acabara de sair do banho.
como não soubesse que o vapor do chuveiro me fazia mais bela e branca, gostava de minha palidez, distraído como criança com a nata do leite.
‘é o que está por cima. é como ela recobre o inferno de ser você.’
conversa com meus demônios e perde os dedos nas mechas sobre meu rosto. eventualmente, numa lembrança dos minutos anteriores, pousa a mão sobre a anca descoberta e me traz mais pra perto.
sabia bem do que gostava, era claro e simples.
‘você merecia um cabelo assim tem tempo.’
é calmo e aperta os olhos pra sorrir.
e, como não soubesse que o cabelo a menos me fizera tão bem quanto as linhas que me dedicou, me beija entre um sorriso besta e uma coçada na barba.
conta seus feitos. histórias que ultrapassam as paredes espelhadas do prédio em que passa mínimas quinze horas diárias.
é bom em ser o que é. é bom em contar o que faz.
me apresenta melodias, títulos e roteiros que não conheço e me chama pelo nome.
me chama pelo nome.
nada mais obsceno.
‘boba.’
ri quando arrepio.
vibra enquanto discorro os sonhos e projetos inacabados.
serena quando digo que me apaixonei.
‘não fume. não sem estar com aquele batom vermelho’.
era sexo.
isso sim era sexo.
Carnavais.
•29/junho/ 2009 • 2 Comentários(ao pé da cama)
riqueza de pierrot!
enchem os olhos as águas mansas da partida.
colore os dias de maldições a infantil modo: ignorante.
navega em jeitos e tentações e faz de horas irreais, concreto latejo.
doma o caos e desapercebe a beleza devastadora do coração remendado que carrega no bolso da camisa.
lado esquerdo preenchido.
veludo de toque que não se sabe quente, tens sorte.
não fosse hoje o dia bobo em que você vai embora, eu seria só lamento.
não tivesse hoje me ensinado que dessa riqueza eu não poderia partilhar nunca – herança infértil, tal olhar cinza só não pesa na cara de um camarada tão cândido! – eu seria farrapo.
ventura minha.
de certo não estou pronta pra estar só. *
de certo, muitos meandros a entender.
me cansaria não fossem suas canções tão belas.
seus olhos tão talentosos.
mas pierrots também nascem prontos.
e, vivida a bonanza das horas de observar-te, apronto as malas, te acordo mais tarde e te digo tchau.
‘é preciso afinco de astronauta pra crer que o mundo não vai lhe cair na cabeça quando se está fora dele.’
* baby blue– dave matthews band
crime. e castigo(-me).
•16/junho/ 2009 • 1 Comentáriodois dos olhos feitos de gude que o mundo tem razões de ostentar, moram na cara de uma criminosa.
e se é que existe gude castanho, esse me faltou na coleção de moleque.
deixou de me dar, um tio qualquer.
o ardiloso parente, de certo anteviu meu traço até chegar aqui e votou pelo achaque que é a vida de um homem que não conhece artifício de amor; privou-me do encantamento prévio.
soubesse ele que cresceria poltrão o sobrinho-filho-neto único, teria me dado penas de pavão para colar no rabo murcho.
como é que fazem isso, meu deus?
como é que um homem do meu cansaço tem trama de se apaixonar agora?
se apaixonar de embaçar os óculos?
pudera.
sem conhecê-los, fui alvo fácil dos couros.
esperar o quê do mundo, se nem no tio da infância podemos confiar?
se o que apresenta másculo o mundo de bigodes por vir e revistas grudentas a um menino não lhe apresenta o maior dos perigos da vida?
dois gudes…
e ela abraçou o presente que nunca chegou à minha meia de natal, tapou o que eram dois buracos até então e veio.
cúmplice do crime antes mesmo de nascida.
esperaram por ela toda uma vida os meus olhos foscos.
e, avançada a idade da brincadeira de joelhos, só voltaram a mirar o buraco dedo-terra em razão dessa vinda.
eu, presa muda, me queixo.
e agradeço.
grinalda negra.
•29/maio/ 2009 • 5 Comentáriosela estava em casa, afinal.
e chorava. ignorando o rio negro de maquiagem e dor que, pelo pescoço, adentrava o decote, os seios.
ele despiu a mulher.
deitou-a mais com urgência que com ternura.
conhecia a patroa o suficiente pra acomodá-la em dois travesseiros e, sem cerimônia arrancar-lhe o celular das mãos e levá-lo consigo.
as cortinas pesadas cerraram o dia definitivamente.
fechou-as quase que em compasso com os olhos dela.
‘Is there anything
I can do for you dear?’ *
gemido.
chorava dor e sufocava no algodão cheirando a amaciante e cigarro.
ele saiu.
não deixou par de chinelos na beira da cama.
sabia. pra ela, a casa era ambiente nu.
andar descalça era, de certo modo, sua valsa com o passado.
passava a limpo os passos de deslembrar a vida na madeira corroída dos tacos.
não fez chá. nem água com açúcar.
anestésico não seria alento. e ela nunca preferiria um ao outro.
na sala, providências e contenções.
telefone desligado, portas trancadas, música mais alta que a curiosidade dos vizinhos. ensurdecendo a tristeza dela.
agora era só aguardar.
espera sem reza; quanto menos gente soubesse dela melhor.
já a vira assim antes.
já encerrara muitos dias azuis pra ela.
mas nem sua intimidade assalariada o permitia esquecer dos dias dourados da mulher miúda da cama.
era bela. bela e luminosa.
cultivava os cabelos como cultivava amigos; sempre indo e vindo barulhentos e coloridos pela casa.
quantos fundos de garrafa a recolher no outro dia.
quantos versos consagrados, idéias alexandrinas aqueles artistas — todos! – cunharam nas madrugadas felizes da cozinha. e, quando finalmente todos se iam, ela, doente de felicidade e ânsia, convidava o empregado ao quintal pra falar e falar e remontar os futuros sucessos recém imaginados.
disparate de mulher e fúria era ela.
previu no dia em que o novo amigo sentou-se à mesa com os velhos, que aquele gelo residente do estômago de toda mulher havia acordado. e, quando de cara com a paixão, aquela que desfia enquanto tece o amor, ela sucumbiria.
hoje, madrugada após madrugada, recolhia o prato do novo amigo da mesa posta há quase três anos. lia a borra do café frio que aniversariava na garrafa.
e esperava.
esperava a chaga fechar, o desamor finalmente viuvá-la, o gelo feminino novamente recolher-se à margem da mulher que ela era.
lavava os lençóis suados de pesadelos. encerrava dias.
insistia em comprar azaléias brancas para a varanda. mesmo que a ordem fosse de mantê-la fechada.
esperava.
e esperaria até que os dias fossem bem vindos.
novamente.
*hometown glory – adele.
Salvador
•27/maio/ 2009 • 1 ComentárioDali de cima é uma beleza só.
O tempo derretendo não tem contorno triste.
Que o deserto preencha.
Dali, de cima.
É uma beleza só o tempo derretendo. Não tem contorno triste que o deserto preencha.

