Conversavam. Nunca entre si. Ele com seus culhões, ela com seus laços.
Ele, provindo de uma família de covardes, era mais ou menos como um cavaleiro por herança: conservava um cavalo cego e valente e, sob um altar, uma armadura por polir. Mas, do pé da morada de vidro, via-se uma imagem desconcertante.
A armadura, nem branca, nem lata, não trazia um elmo.
Que cavaleiro, por menos condecorado, seria tão decimal – o zero à esquerda – a ponto de ignorar o artefato?
E, diante dos questionamentos, resposta tão estranha quanto.
O pai quando em combate, honrando o sobrenome, abrigou-se na copa de uma árvore para fugir das lanças do inimigo. Qual não foi o destino, uma cascavel da pior procedência lhe agarrou o pescoço e o engoliu pelas orelhas.
Não havia notícias de nunca uma serpente, do tamanho que fosse, ter feito de um homem sua ceia!
E, confirmando a crença popular, o animal sufocou-se.
Deu de gosto com as têmporas do homem e, de rígida como aço, padeceu à inércia dos mortos. Desfigurado pelo ataque, teve um cortejo fúnebre rápido e o filho, agora homem da casa, decidiu resguardar a cidade da imagem ferida do pai: adornou-o com o elmo e o recobriu de flores até o pescoço.
Ali jazia um cavaleiro abatido pelo pecado da covardia.
De certo a história não demorou a correr.
Muitos vinham contemplar a armadura sem cabeça. Mas, o fato, era que poucos ouviram-no contar de própria saliva.
Já ela, privilegiada e de sentidos substituídos pelo vinho, tinha os detalhes do funesto conto ali, expostos à meia luz na praça matriz do povoado.
Preferiu sorrir e abrir um pouco mais o decote para talvez, encerrar a sucessão de lágrimas do rapaz já tão etílico e nostálgico.
Ele percebeu a artimanha e aninhou a cabeça no colo ofertado. Era um covarde, afinal.
Ouviu-a dizer que estava cansada da vida na confeitaria, que se lhe dessem uma única chance como camareira no castelo do conde Marshallês, mudaria correndo para os domínios do nobre.
Apontou-lhe as bochechas vermelhas, ‘é o vinho’, cheirou-lhe o pescoço, abriu um pouco mais a blusa respingada de fios de ovo.
Nem todas as histórias do mundo, nem a dele e seu pai, a armadura que um dia seria sugada pela terra, a infelicidade da moça, nada. Nada daquilo era suficiente para aplacar a imensa vontade de serem ouvidos um pelo outro.
Eram, por assim dizer, oportunidades gastas no desmanchar da noite.
E da praça ao monte de feno mais próximo consumiram-se do jeito que sabiam.
Ela a espera do mais viver, ele na fuga de não morrer.

